quinta-feira, 23 de abril de 2026

Em Nome do Senhor

A Ressureição em Cristo

    Enquanto somos iluminados pela luz da ressurreição de Jesus Cristo, transfigurada em nós neste tempo pascal, venho refletindo sobre a nossa ressurreição em Cristo, que Santo Agostinho, na obra A Cidade de Deus, distingue como sendo duas: a primeira, que sucede à morte terrena, e a segunda, que ocorrerá no Juízo Final. Neste mês, refletiremos somente sobre a primeira. 

    “E por todos os mortos morreu um só, aquele que não tinha pecado algum, para que os que vivem pela remissão dos seus pecados vivam não para si mesmos, mas para aquele que morreu por todos, pelos nossos pecados, e ressuscitou para a nossa justificação, a fim de que nós, crendo naquele que justifica o ímpio, e sendo justificados da impiedade, ou vivificados dentre os mortos, possamos alcançar a primeira ressurreição, que agora se realiza. Pois nesta primeira ressurreição ninguém tem parte senão aqueles que serão eternamente bem-aventurados; mas na segunda, da qual ele continua a falar, todos, como veremos, têm uma parte, tanto os bem-aventurados quanto os miseráveis.” (A Cidade de Deus, Livro XX, cap. 6) 

    Jesus, com sua morte, desceu à mansão dos mortos, o lugar que os gregos chamam de Hades, onde estavam todos aqueles que morreram antes da vinda do Senhor, pois, sem a redenção dele, não poderiam entrar no paraíso celeste, que Adão perdeu com sua desobediência. Foi com sua morte e ressurreição que o Senhor abriu para nós as portas do céu: “E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos.” (Mt 27, 52) 

    Jesus, conforme a tradição da Igreja, no Sábado Santo, pregou o evangelho da vitória àqueles que dormiam no Hades para despertá-los para a vida nova, pois aquele sono de morte era esperança de ressurreição: “É nesse mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos no cárcere.” (1 Pd 3, 19) Aqueles, pois, que o escutaram foram levados por ele para o Reino dos Céus. Esses homens e mulheres foram os primeiros a ressuscitar em Cristo, pois a primeira ressurreição apontada por Santo Agostinho consiste na morte para esta vida e na glorificação do espírito junto da glória de Cristo ressuscitado. Pois, aqueles que esperavam a vinda do Messias creram nele sem tê-lo visto, e todos aqueles que não conheciam a esperança de um salvador, ouviram sua mensagem e foram chamados por ele para entrarem em sua glória. 

    Para nós, que sucedemos esses fatos, somos convidados a ressuscitar para a vida eterna que deverá ser antecipada pela fé e pelas boas obras que ele nos transmitiu. Ele passou pela morte e dela ressuscitou como primícias de nossa ressurreição: “Se morremos com Cristo, com ele ressuscitaremos” (Rm 6,8). A morte com Cristo consiste em ser batizado em seu nome, pois este sacramento apaga em nós a culpa do pecado original, do qual Cristo veio nos libertar. Contudo, o sacramento por si só não é suficiente, é torna-se necessário atualizá-lo pela prática dos mandamentos do Senhor. 

    Mas, assim como há para nós a ressurreição em Cristo, que nos concede uma nova vida, há também uma segunda morte, que consiste na sentença da alma que, após passar pelo juízo do Ressuscitado, é considerada indigna da vida eterna e condenada ao fogo eterno, onde a glória de Deus não se faz presente. 

    Deus é o Deus da vida, e o inferno consiste na separação total entre Deus e a alma condenada. As almas condenadas sofrerão por toda a eternidade a segunda morte, porque nela não há vida, a qual só pode ser encontrada junto daquele que a criou. 

    De fato, o que nos salva é a graça misericordiosíssima de Cristo, que envolve a sua Igreja, na qual todos os que foram regenerados pelo sacramento do Batismo, tornaram-se membros e participantes de suas promessas. 

    Concluímos que, de fato, o Senhor ressuscitou para todos, mas a graça dessa regeneração é concedida àqueles que, abraçando a fé, assumem para si a missão de dar testemunho do Ressuscitado por meio das boas obras. Pois, assim como fez no dia seguinte à sua morte, ele oferece a sua salvação a todos que, ouvindo a sua palavra, desejam alcançar a vida nela. 

Kairo Marques

Cristo Ressuscitado libertando do Hades Adão e os Santos Patriarcas e Profetas  

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