quarta-feira, 1 de julho de 2026

Em Nome do Senhor - O que é a verdade?

“Quid est veritas?” foi a pergunta que Pilatos fez a Jesus: “O que é a verdade?” (Jo 18,38). E Jesus nada lhe respondeu. Muitas vezes me ponho a pensar nessa pergunta e a refletir sobre sua importância. Além disso, este é o meu evangelho favorito, seja pela beleza de sua linguagem literária, seja pelo profundo sentido teológico que ele nos apresenta.

Vejamos o contexto: São João nos narra que Jesus foi entregue pelos líderes religiosos por inveja (Mt 27,18). Como eles não podiam condená-lo à morte (Jo 18,31), e temendo uma rebelião do povo, quiseram lançar sobre o estado a responsabilidade da condenação (Jo 18, 3 / Mc 27, 24). Utilizaram-se da acusação de que Jesus havia se declarado rei para entregá-lo ao governador (Mt 25, 35-45). Ali, diante de Jesus, o governador questiona a veracidade da acusação, e Jesus dá o seu testemunho: “Sim, eu sou rei. Foi para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37). Imediatamente, o governador lhe pergunta: “O que é a verdade?”

Esta é uma pergunta profundamente filosófica. Filósofos que antecederam Jesus buscaram desenvolver seus pensamentos na procura da verdade, entre eles destacam-se Sócrates e Aristóteles. Evidentemente, Pilatos, um aristocrata romano, havia tido contato com a filosofia grega que circulava entre as elites de seu tempo. Ao ouvir Jesus afirmar que veio para “dar testemunho da verdade”, Pilatos possivelmente associou a fala do messias às reflexões que conhecera por meio dos filósofos.

Os outros evangelhos também narraram diálogos semelhantes entre Jesus e Pilatos, (Mt 27, 11/ Mc 15, 2 / Lc23, 3) mas o testemunho da verdade é tratado de forma exclusiva no evangelho de São João. Isso porque, possivelmente, o apóstolo viu a necessidade de desenvolver essa passagem com mais detalhes, já que muitos de seus leitores eram gregos e, por isso, haviam tido contato com as escolas filosóficas. Não por acaso, São João escreveu seu evangelho em língua grega, primeiramente para a comunidade grega. 

Este mesmo evangelho adquire ainda mais beleza a partir do comentário que Santo Agostinho fez, quando o santo doutor procurou desvendar o silêncio de Jesus após o questionamento do governador. Na expressão latina “Quid est veritas?”, esconde-se, segundo Santo Agostinho, um anagrama no qual a própria pergunta já apresenta sua resposta. Ao reorganizar as letras, obtém-se a afirmação: “Est vir qui adest”, que traduzido fica: “É o homem que está aqui presente”.

Jesus veio ao mundo para dar testemunho da verdade, porque ele próprio é a verdade. Como afirma o Evangelho de São João, Cristo é o Verbo de Deus, isto é, a palavra eterna do Pai, existente desde o princípio: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Entretanto, a compreensão de Jesus como o Verbo divino torna-se mais profunda quando consideramos que, muito antes que o evangelho de São João fosse escrito, a filosofia já buscava compreender a ordem e o sentido do universo.

Na filosofia grega, especialmente entre pensadores como Heráclito, Platão e Aristóteles, encontramos reflexões acerca do logos (sabedoria), entendido como o princípio racional que governa e dá inteligibilidade à realidade. Embora esses filósofos não conhecessem a revelação cristã, suas investigações podem ser vistas como uma preparação intelectual para a acolhida da verdade plena manifestada em Cristo. 

É na palavra de Jesus que encontramos a verdade, é no cumprimento dessa palavra que vivemos a verdade. Sem a verdade, não há sentido para a existência humana. Deus criou o homem para a verdade, e tudo o que o afasta dela o afasta também de Deus. Quem busca conhecer os ensinamentos divinos terá a verdade como guia. Deus é o Deus da verdade, e nós somos privilegiados por conhecê-la, pois ela nos foi revelada por meio de seu Filho, Jesus Cristo.

Kairo Marques

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