sexta-feira, 27 de março de 2026

Entrevista ao Padre Robson Caixeta

      Nosso entrevistado da edição do mês de março é nosso vigário paroquial, Pe. Robson Caixeta Silva. Filho de Silésia Caixeta Silva e Paulino Silva, nasceu em Coromandel, mas passou a maior parte da Infância em Lagamar. Foi ordenado presbítero em 16 de novembro de 2019, e agora nos conta um pouco mais de sua história:

1- Padre Robson, conte-nos um pouco sobre o despertar da sua vocação sacerdotal. Como foi esse chamado inicial?

    Sou natural de Coromandel, mas desde a infância morei no distrito de Pilar, pertencente a Patos de Minas. Foi nesse ambiente simples do interior que começou a nascer, ainda de forma muito silenciosa, o meu caminho vocacional. Aos sete anos comecei a servir como coroinha, primeiro em Patos de Minas e depois em Lagamar. De modo especial no período em que vivi em Lagamar, os coroinhas tinham também a missão de acompanhar o padre nas celebrações nas comunidades da zona rural. Eu ia praticamente todos os dias. Aquela experiência me marcou profundamente, porque eu via de perto o quanto a presença do padre levava esperança a pessoas que moravam longe da cidade e muitas vezes enfrentavam grandes dificuldades. Percebia ali algo muito bonito: o sacerdote como alguém que se faz próximo das pessoas, que escuta, orienta e fortalece a fé da comunidade. Fui coroinha durante sete anos, até ingressar no Seminário Menor aos 14 anos. No início, o que mais me atraía era justamente essa percepção de que o padre se tornava uma verdadeira referência na vida das pessoas, alguém que ajudava a todos e que dedicava a própria vida ao serviço da comunidade. Permaneci no seminário durante dez anos de formação. Após esse longo caminho de discernimento, estudo e experiências pastorais, fui ordenado sacerdote em 2019, em Lagamar, e esse foi um momento muito especial para mim, justamente por acontecer no lugar onde tantas sementes da minha vocação haviam sido plantadas.

2- O senhor demonstra um perfil profundamente intelectual, sendo autor da obra ‘O Saber Absoluto’ e idealizador do projeto “Intellectus Fidei”. Quando surgiu esse seu apreço pelo conhecimento acadêmico?

    Desde cedo sempre gostei muito de estudar e de ler. Recordo-me que, sobretudo no período em que morei em Lagamar, eu já tinha um grande gosto pela escrita. Gostava de refletir sobre as coisas e colocá-las no papel. Era algo muito natural para mim. No entanto, foi durante o período do seminário que esse interesse pelos estudos foi realmente lapidado. Já havia o gosto natural pelo conhecimento, mas foi ali que aprendi a estudar de modo mais disciplinado e eficiente. A formação intelectual no seminário nos ensina a organizar o pensamento, a ler com atenção e a buscar compreender profundamente as questões que investigamos. A obra ‘O Saber Absoluto’, por exemplo, é fruto da minha pesquisa de mestrado realizada na Universidade Federal de Goiás. Nela procuro discutir temas como a verdade e a maneira como nós conhecemos a realidade, a partir da perspectiva do filósofo alemão G. W. F. Hegel. Vejo esse livro como um dos frutos dessa caminhada de estudo e reflexão. Sempre me marcou muito uma intuição de Santo Agostinho: é preciso compreender para crer, e não podemos amar aquilo que não conhecemos. Por isso acredito que amar a Deus envolve não apenas aquilo que sentimos, mas também o uso pleno da nossa razão. A fé e a inteligência não são realidades opostas, mas ao contrário, quando caminham juntas, elas nos ajudam a buscar a verdade de modo mais profundo.

3- Poderia nos explicar o que é o projeto ‘Intellectus Fidei’? Como tem sido conciliar essa iniciativa com a sua rotina de vigário em nossa paróquia?

    O projeto Intellectus Fidei nasceu no período em que eu estava na Alemanha realizando parte dos meus estudos. Lá é muito evidente, tanto no meio acadêmico quanto em muitas paróquias, a consciência da importância da união entre fé e razão. Essa experiência me marcou bastante e me fez pensar em uma iniciativa que pudesse expressar duas grandes paixões que carrego: em primeiro lugar a minha fé e, ao mesmo tempo, o amor pela filosofia. O Intellectus Fidei procura justamente aproximar o pensamento filosófico e teológico da vida cotidiana das pessoas. Muitas vezes a reflexão acadêmica acaba ficando restrita às universidades, em livros ou em debates muito especializados. No entanto, acredito que essas reflexões podem contribuir muito para a formação cultural e espiritual da comunidade, ajudando as pessoas a compreenderem melhor a própria fé e também os grandes temas da vida. Naturalmente, enquanto eu estava na Alemanha havia mais tempo para preparar cada episódio com calma. Agora, de volta ao Brasil, além das atividades pastorais na paróquia, também exerço a missão de professor no Seminário Maior da nossa diocese. Por isso estou reorganizando a rotina para dar continuidade ao projeto. A boa notícia é que nas próximas semanas já teremos novos episódios sendo publicados.

4- Como foi o período em que o senhor viveu na Alemanha? Por quais cidades passou e de que maneira essa vivência contribuiu para o seu doutorado em Filosofia?

    Fui para a Alemanha para realizar uma etapa central da minha pesquisa de doutorado em Filosofia. Nos meses iniciais morei em Düsseldorf, hospedado no Mosteiro de Angermund, onde pude participar de um curso intensivo de língua alemã que me preparou para as atividades acadêmicas do doutorado. Em seguida mudei-me para Munique, onde estudei no semestre de inverno na Hochschule für Philosophie, sob a orientação do Prof. Dr. Georg Sans. O convívio com professores e colegas naquele ambiente foi decisivo para afinar métodos e questões de pesquisa. Tive também oportunidade de visitar centros de pesquisa e bibliotecas essenciais, onde o acesso a edições críticas, manuscritos e anotações que não se encontram facilmente no Brasil ampliou muito o alcance da investigação. Esse contato direto com a tradição filosófica alemã e com a bibliografia sobre G. W. F. Hegel foi fundamental para aprofundar o tema do meu doutorado. Além disso, conheci diversas cidades relevantes para a história do pensamento, entre elas Jena, Weimar, Nuremberg, Bonn, Leipzig, Dresden, Augsburg e Colônia, bem como centros próximos de interesse intelectual, como Praga, Amsterdã e Atenas. Essas visitas não foram apenas acadêmicas: ampliaram minha sensibilidade cultural e histórica, enriquecendo a interpretação dos textos e das tradições com as quais trabalho. Para mim foi realmente especial ir aos lugares onde os grandes intelectuais do ocidente viveram.

5- A Paróquia Santa Terezinha muito se alegra com a sua presença. Qual mensagem o senhor gostaria de deixar aos paroquianos para este tempo quaresmal?

    Eu também fico muito feliz por poder exercer meu ministério aqui na Paróquia Santa Terezinha. E, por isso, eu aproveito a oportunidade para dizer a todos os fiéis que a Quaresma é um período muito precioso para a vida cristã. A Igreja nos oferece esses quarenta dias como uma oportunidade de voltar o coração para Deus com mais sinceridade e profundidade, permitindo que Ele renove a nossa vida. Eu creio que, mais do que simplesmente cumprir algumas práticas externas, a Quaresma nos convida a uma verdadeira conversão interior. Converter-se significa revisar nossas atitudes, nossas prioridades e também o modo como estamos vivendo a nossa fé no cotidiano: na família, no trabalho, na convivência com as pessoas e na nossa relação pessoal com Deus. Por isso, gostaria de convidar todos os paroquianos a viverem este tempo com três atitudes muito concretas. Em primeiro lugar, intensificar a oração, reservando momentos do dia para estar em silêncio diante de Deus e escutar a sua Palavra. Em segundo lugar, praticar gestos concretos de caridade, lembrando-nos especialmente daqueles que mais sofrem e precisam de nossa ajuda. E, por fim, fazer um sincero exame de consciência, olhando para dentro de nós mesmos com humildade, para receber a vida nova em Deus por meio do sacramento da Penitência. Quando abrimos espaço para Deus em nossa vida, Ele age de maneira muitas vezes silenciosa, mas profundamente transformadora. Que esta Quaresma seja, para cada um de nós, um tempo de reencontro com Deus, de reconciliação e de crescimento espiritual. Que Deus abençoe cada família de nossa paróquia e que possamos caminhar juntos, como Igreja, rumo à alegria da Páscoa.

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